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Estamos de mudança

Outubro 1, 2008

Caríssimos.

Embora estejamos fazendo ajustes finais, fico contente em dizer que agora este blog está em:

http://www.gabrielferreira.com.br

Já migrei os argquivos e só estão faltando algumas modificações no layout. Atualizem os bookmarks!

Abraços.

Gabriel.

Sobre ultrapassar-se

Agosto 1, 2008

Em 2005 publiquei este post, por ocasião do falecimento de um amigo. Hoje, por conta de outro falecimento, posto novamente.

***

I

Sob certo aspecto, Stalin – que foi um sujeito execrável – estava correto ao dizer que a morte de uma multidão não era propriamente ‘morte’; morte é apenas o falecimento de um ente querido,de um amigo. Facilmente entende-se o que aqui quero dizer: só experienciamos a brutalidade da morte quando aquele que morre é alguém social, histórica e pessoalmente delimitada. Somente quando esses três vetores convergem para um determinado ponto – o ‘quem’ morre – é que tal fato mostra-se com toda a opacidade diante de quaisquer idéias mediadoras. Não se trata aqui de um discurso apologético ou um discurso de tese; é antes de tudo uma torrente de pensamentos que acompanham outras tantas torrentes – sejam elas de lágrimas, palavras ou ainda aqueles sentimentos desconexos que experimentamos nestes momentos – nascidas do falecimento de um amigo.

Não demanda grande quantidade de pensamento a percepção que não fazemos experiência da morte propriamente dita. A nossa ‘experiência’ da morte é sempre da morte dos outros. Concorda-se, então, facilmente com Epicuro quando esse diz que a morte não é nada para nós pois não a vivenciamos. Mas
sou obrigado a discordar duramente dele quando diz que por esse motivo não devemos temê-la ou preocupar-nos com ela. Mesmo desconhecendo sua essência, o que ela é na verdade, os fenômenos que apresenta são sujos e terríveis. A imagem da qual Fernando Pessoa se utiliza – de que morrer é como dobrar uma esquina; é só não ser mais visto – aqui também não serve para nada e talvez até aumente o nosso pavor. Não ser mais visto é des-aparecer, e por conseqüência ser esquecido (léthe, em grego). Para insinuar o que pretendo indicar é suficiente lembrar o vocábulo ‘Verdade’ em grego – alethéia – que nos remete a não-esquecimento. Desaparecer, portanto, é a irrupção da mentira e a nossa razão treme diante de tais palavras. Isso talvez aponte para o fato de que nem a poesia seja competente para lidar com tal assunto.

A morte é assim, algo difícil de se apanhar pelo discurso. Os três principais modos de discurso sobre a morte elencados por Platão, no Fédon – o da física (entendida como representante das hoje chamadas
‘ciências naturais’), o da tragédia (literatura catártica) e o do mito (religioso) -, não esgotam de maneira alguma o que é a morte; todos os três são, de certa maneira, verdadeiros e falsos, dão e não dão conta do objeto, que por sua própria natureza está sempre, como possibilidade, conosco, mas nunca diante de nós, como uma árvore ou um copo estão diante de nós. Percebe-se, aqui, bem a dimensão do problema e sua profundidade angustiante, a ponto de forçar Sócrates a deter seu discurso e propor a seus interlocutores que apenas creiam em suas palavras… Como nos diz um filósofo de nossos dias: ‘A razão é impotente ante os gritos do coração’.

II

Mas não me sinto satisfeito em abandonar tal discurso no meio do caminho. Assim, quero fazer um salto. Quero novamente deixar claro que não se trata aqui de apologética, catequese ou afins. Mas sim, trata-se de conforto, esperança e fé. Apenas registro meu lamento sobre a incapacidade da modernidade (ou ‘pós-modernidade’, como alguns dizem) de ver nas verdades de fé, conteúdo noético inteligível, coerente e que incremente nossa experiência. Dito isso, prossigamos.

Muito já se falou sobre a angústia da morte dentro do horizonte do cristianismo e meu redobro não seria nada valioso senão para sanar um desejo de reforçar em mim e em alguns dos meus leitores, certas verdades e significações. Quero evocar aqui a célebre passagem exposta no Evangelho segundo João (capítulo 11), sobre a morte de Lázaro. Nela, asirmãs de Lázaro mandam avisar Jesus que aquele – ‘amado’ por este (Jo.11,3) estava doente. A atitude tomada por Jesus é, a princípio, no mínimo curiosa: espera ainda dois dias antes de ir para a Judéia. Ao chegar, Jesus sabe que seu amigo está morto (Jo. 11,15). Atenhamo-nos,por um instante, às figuras de Marta e Maria, irmãs de Lázaro. Elas criam obstinadamente Naquele a quem mandaram chamar. Ele poderia ter curado seu irmão com apenas uma palavra, como fizera com o servo do centurião (Lc. 7, 6ss), mas não o fez. Elas viram inclusive o próprio Jesus derramar lágrimas (v. 35). É exigido delas então, o mesmo salto que tentamos promover; aquele que ultrapassa superabundantemente o domínio do fenômeno e acessa uma Verdade para além de nossas definições; o salto da fé. Elas próprias viram o Senhor se angustia reangustiaram-se com ele. Mas aqui há uma novidade em relação a tudo o que foi dito e as palavras de Cristo bem nos dizem: “Esta doença não é para a morte, mas é para a glória de Deus (v. 4) … E, por causa de vós, eu me alegro por não ter estado lá [antes da morte de Lázaro] pois assim podereis crer” (v.15).

A tal novidade é justamente o ultrapassar-se totalmente o campo do possível e do previsível. É esperar firmemente no ‘adiante’. É angustiar-se com o espírito já antegozando sua vitória. É o máximo que consegue-se dizer pois é o máximo da Verdade. E, mesmo se nosso ser se estremece nestes momentos onde a visão se turva, tenhamos a convicção de que mesmo “se o nosso coração nos acusa, Deus é maior que o nosso coração e conhece todas as coisas” (1Jo. 3,20).

Migalhas de reflexão ou O que nós da filosofia devemos fazer

Julho 16, 2008

Como é de costume, li o Avelar. E topei com um post no qual ele embute um vídeo de Paulo Ghiraldelli Jr. falando, entre outras coisas, sobre o projeto bisonho do senador Eduardo Azeredo, do PSDB de MG. Para além da tosquice do cidadão que se auto-epiteta “o filósofo da cidade de São Paulo”, vamos a alguns trechos que me incomodaram os ouvidos:

1) O “filósofo” começa por dizer quão absurda é a censura para o que é culturalmente aceito. E daí saca os pobres Adorno e Horkheimer que estavam lá quietos no Olimpo para deduzir, da censura do que é culturalmente aceito, a sociedade da total administração. Não vou comentar que o processo de burocratização da vida e a redução àquilo que Marcuse denominou unidimensionalidade do homem retiram sua força de uma reflexão muito mais fina que enxerga em elementos muito mais sutis este processo, e não na simples e declarada censura.

O que simplesmente não consigo entender é o paradigma eleito pelo pensador da paulicéia: basta que seja socialmente aceito – e daqui ele exclui, por exemplo, a dimensão da legislação, fundamental em uma sociedade, já que opõem a privação pela lei àquilo que é aceito pela sociedade – que tal coisa não pode mais ser objeto de reflexão ética nem de juízos?

2) Mais adiante Ghiraldelli elabora mais uma oposição infundada: ao criminalizar a pedofilia incorre-se necessariamente na impossibilidade de tratamento do doente. Algumas coisas básicas: um homicida que mata compelido por uma doença mental pode ter seus atenuantes, mas o fato que ele provoca, o homicídio, não pode ser simplesmente negado. Ele gera, inclusive legalmente, um evento incontornável independente de sua motivação. A distinção entre culposo e doloso já é índice de tal distinção. O pedófilo pode ser movido por uma patologia, o que pode atenuar sua punição mas em nada altera a efetividade do crime. Logo, a punição e o tratamento não são de modo algum excludentes e o professor deveria ver com bons olhos, como filósofo, o quanto de abstração há em tal procedimento que consegue separar, ainda que formalmente, o crime e o que se passa com o criminoso.

3) Por duas ou mais vezes o professor fala no malefício que é refrear o progresso da tecnologia. Como se buscar atividades de pedófilos na rede fosse uma espécie de neo-ludismo. O argumento positivista ingênuo que arroga o progresso tecnológico como paradigma ético chega a ser acintoso. Como se questões éticas não estivessem necessariamente implicadas na atividade científica ou como se esta estivesse para além de quaisquer reflexões acerca da práxis humana. Isto é, aliás, problema da modernidade que só excita a dimensão instrumental da razão como se, por seus resultados, fosse autoridade última da humanidade. Ora, mas isso é justamente aquilo contra o que falam Adorno e Horkheimer…

4) Ghiraldelli identifica a postura da censura com o conservadorismo. Eu simplesmente não sei o que siginifica conservadorismo. Não sou de maneira alguma favorável ao que propõe o senador mineiro. Mas, se conservadorismo se refere à conservação de algo, talvez benéfico, não vejo onde o professor enxerga problema. De fato, em estreita relação com o positivismo do “argumento” anterior, conservadorismo está pari passu com retrocesso e inação. Então, não consigo encontrar melhor resposta do que uma citação de G. K. Chesterton:

We have remarked that one reason offered for being a progressive is that things naturally tend to grow better. But the only real reason for being a progressive is that things naturally tend to grow worse. The corruption in things is not only the best argument for being progressive; it is also the only argument against being conservative. The conservative theory would really be quite sweeping and unanswerable if it were not for this one fact. But all conservatism is based upon the idea that if you leave things alone you leave them as they are. But you do not. If you leave a thing alone you leave it to a torrent of change. If you leave a white post alone it will soon be a black post. If you particularly want it to be white you must be always painting it again; that is, you must be always having a revolution.

A inação e o retrocesso são próprios daqueles que pensam que o passar do tempo é progresso por si só e não o simples passar do tempo.

5) Por fim, ele conclama seus pares, filósofos, ao dever de lutar pela liberdade individual. Ok, eu não sou filósofo e talvez seja este o meu problema. Mas, novamente, não entendi. A tarefa da filosofia é conclamar à luta ou pensar nas condições de possibilidade ou validade de tal luta? Creio que a maior contribuição que a filosofia poderia dar ao assunto seria fazer justamente aquilo que o senador parece não ter feito, ou seja, refletir sobre todas as questões que sua canetada pode tangenciar. Não me parece horrenda a proposta de se pensar em punições a crimes graves, como os de pedofilia por exemplo, que encontram sim na internet ambiente fecundo e aparentemente impune. Isso nada tem a ver com cerceamento de liberdade de expressão e outras baboseiras que pululam no projeto. Concedo que os limites entre o que constitui crime e o que não constitui não são sempre claros, sobretudo em terras virtuais. Mas pensar nesses limites deve ser censurado?

P.S. Ahn.. e antes que eu me esqueça, a Ave-Maria de Gounod enquanto a moça geme foi o fino do bom-senso… Como disse Descartes, o bom-senso é a coisa do mundo melhor partillhada porque ninguém acha que deveria ter mais do que acha que tem… Ahn, mas a quem eu lembro isso?! O homem é “o filósofo”…

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Teologia e Fundamento

Julho 14, 2008

Li hoje, no excelente site da Chiesa, a notícia sobre a querela entre os irmãos Boff, Leonardo e Clodovis acerca de um recerte artigo deste último. Clodovis, em texto publicado no volume de outrubro último na Revista Eclesiástica Brasileira (leia na íntegra aqui e volte depois para ler o resto) aponta o que chama de “questionamento de fundo” acerca dos fundamentos da Teologia da Libertação. Sua crítica se dirige, principalmente, ao que denomina, um tanto imprecisamente, “ambigüidade epistemológica”. Alguns comentários:

1. O ponto no qual Clodovis toca é nevrálgico. Por “ambigüidade epistemológica” o teólogo levanta um questionamento sobre uma suposta indecisão entre o pobre como princípio e o Cristo como princípio.

2. Entretanto C. Boff foi por demais eufêmico. Se o ponto de vista é o da práxis da TdL nos seus 40 anos de caminhada, Clodovis há de convir que não há nenhuma flutuação no que diz respeito aos fundamentos. O viés adotado, por exemplo, por Jon Sobrino é explicitamente o do pobre, não como lugar ou categoria teológica, mas como prisma através do qual mesmo o mistério salvífico do Cristo deve ser visto. Ou não é isso o que sentenças como as de Jon Sobrino, em seu Jesucristo liberador, querem dizer: “Los pobres cuestionan dentro de la comunidad la fe cristológica y le ofrecen su dirección fundamental” (p. 50) ou ainda “El lugar social, es pues, el más decisivo para la fe, el más decisivo para configurar el modo de pensar cristológico y el que exige y facilita la ruptura epistemológica” (p. 52).

O que verdadeiramente há não é uma indecisão de princípio mas, de fato, uma decisão enganosa. E a “conseqüência” óbvia é que há décadas vimos colhendo os frutos de tal erro. Neste aspecto o artigo de Clodovis Boff não tem nada de genial. Ele inclusive demora a se dar conta daquilo que, desde sempre, constitui o cerne das críticas feitas à TdL.

3. Trechos como os seguintes mostram os desdobramentos necessários do problemas acima apontado:

Que o pobre seja um princípio da teologia ou uma perspectiva (ótica ou enfoque), é possível, legítimo e mesmo oportuno. Mas apenas como princípio segundo, como prioridade relativa. Se assim é, a teologia que arranca daí, como é a TdL, só pode ser um “discurso de segunda ordem”, que supõe em sua base uma “teologia primeira”.

e ainda

No plano eclesial. A “pastoral da libertação” se torna um braço a mais do “movimento popular”. A Igreja se “onguiza”.

Novamente, o autor só faz reverberar aquilo que há muito já é sabido. Entretanto, a síntese genial é feita não por C. Boff mas alguns anos antes, por von Balthasar em seu The office of Peter.., que agudamente notou que tal engano de princípio faz com que o cristianismo seja reduzido a uma certa práxis como se não constituísse, na realidade, na fé em determinadas coisas.

4. Clodovis Boff vê as coisas, no que diz respeito ao Documento de Aparecida, de uma maneira um tanto ingênua (para concordar em o menos um ponto da crítica de Leonardo). Não quero aqui traçar uma análise no que tange o texto dos bispos. Mas cumpre lembrar que o autor mesmo aponta sem ver a equivocidade dos princípios no tal documento:

E mesmo quando a V Conferência parte dos pobres, seguindo o método “ver, julgar e agir”, faz isso apenas materialmente (para contentamento dos TdL), pois formalmente parte sempre, antes ainda, de Cristo.

A distinção entre “formal” e “material” não dá conta da ambigüidade presente nos pressupostos do bispos do Congresso de Aparecida. Há ainda não pequenos resquícios da TdL na CNBB que, de fato, carrega para a redação do Documento a mesma opção errada pelo fundamento segundo.

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E o pouco que lê…

Maio 30, 2008

Foi publicado o resutado da Pesquisa Retrato da Escola 3 com dados sobre, entre outras coisas, leitura do educador brasileiro, que é uma piada.

Leia a pesquisa, na íntegra, aqui.

Já o Instituto Pró-Livro está realizando o seminário “Retratos da leitura no Brasil” que também disponibilizará os números de uma pesquisa mostrando que, em média, o brasileiro lê irrisórios 4,7 livros por ano. Detalhe: quem mais lê são os jovens e as crianças. Calma, antes de se alegrar veja: 3,4 são obras pedidas nas escolas e só 1,3 é lido a partir da boa vontade do cidadão.

E ainda tem a grande verdade veiculada pelo título do post…

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